sexta-feira, julho 07, 2006

Convidado Especial fala sobre: a Idade Média

Idade Média, uma idade das trevas…porquê? -parte I

O período medieval é ainda (lamentavelmente) encarado como um tempo estagnado, de trevas, de escuridão, de destruição e guerras, de superstição, de perseguição, de ausência de progresso (ou mesmo de retrocesso em relação ao período antigo), sem arte nem cultura.
Este “preconceito” já reporta à modernidade, para os renascentistas a “Idade Média” teria sido uma interrupção no progresso humano, inaugurado pelos gregos e romanos e retomado pelos homens do século XVI. Com o iluminismo o estigma mantém-se, a filosofia da época guiada pela luz da razão tinha nos seus filósofos firmes opositores aos privilégios sociais e também contrários ao peso da Igreja na sociedade e na política.
Começa então a Idade Média com a queda do Império Romano do Ocidente (século V) e consequente formação dos reinos bárbaros saídos das invasões. Corte abrupto civilizacional? Nem por isso, e escutemos Lucien Febvre: “Fracasso, o Império Romano? Politicamente, talvez, mas não sabemos nós que é preciso não confundir os destinos de um Estado com os da civilização que ele propaga.” Entre esses elementos está o cristianismo, que permanece como fonte estruturante nos novos reinos. A Cristandade Ocidental é, pois, um sistema simultaneamente religioso e político, um cruzamento de esferas de intervenção do poder temporal dos príncipes com o poder espiritual da Igreja.
Será pois o cristianismo a pautar todas as dimensões da vida medieval no Ocidente. Comecemos pelo poder político. Os reis medievais, ao contrário do que se pensa, não podiam ser déspotas que exercessem o poder por capricho. O poder régio tinha de obedecer a parâmetros fixados pela doutrina religiosa: o rei só o poderá ser caso governe para o bem comum (tentar criar a “Cidade de Deus” na Terra), louvando os bons e castigando os maus, impondo a ordem, defendendo as fronteiras e respeitando a Santa Igreja de Cristo. Após época em que o poder efectivo esteve nas mãos dos senhores (época feudal - séculos IX a XI) será o tempo de fortalecimento do “Rex”. A criação e/ou aperfeiçoamento de várias instituições (tribunais régios, corte itinerante, fiscalidade, etc.) juntamente com uma propaganda centrada na sua figura (sagração, unção, o fenómeno taumaturgo) permitiram um fortalecimento eficaz da autoridade régia, sendo que só com este robustecimento do poder central (e consciencialização da sua necessidade) se conseguiu o atingir dos estados-nações (séculos XIV-XV). Não são vários os actuais estados europeus com sua origem na Idade Média?
No que toca à sociedade, é comum hoje acusar-se a sociedade desigual, injusta, “anti-democrática” e exploradora! Perfeitamente ridículo, há que ter em conta que não se tratava de classes, mas de ordens que formavam a sociedade medieval, em que cada uma tinha uma função especial (oratores – rezar pela humanidade; bellatores – combater pela defesa de todos; laboratores – trabalhar para o sustento geral), essencial para o equilíbrio e harmonia do funcionamento do “mundo” sempre em consonância com os “desígnios divinos”.
A guerra é actualmente das situações mais propagandeadas para denegrir a Idade Média. Contudo, o acto bélico para ser feito licitamente teria de obedecer a vários parâmetros canónicos, só se podia partir para uso da violência se hipotética causa de guerra for “justa” (jus ad bellum) e deverá ser conduzida e praticada com vários preceitos subjacentes (jus in bellum). Foi também na Idade Média que se disciplinou o comportamento guerreiro pela cristianização da cavalaria (“miles Christi”), pela instituição da Paz de Deus (proibia a profanação de locais de culto religioso e o ataque a não combatentes)e das Tréguas de Deus(proibia o uso da violência em vários períodos litúrgicos)
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Porque sou “aspirante” a historiador e sei que o meu papel é tentar compreender e não julgar o passado, e porque a Idade Média (como qualquer época) deve ser vista com os olhos dela própria e não com os daqueles que viveram noutro momento, sinto pois, que não posso deixar passar em claro este estigma e calúnia actualmente despropositada para com tão importante período.
António Costa
[Este artigo é da autoria de António M. Costa -Toninho-, assíduo leitor do Blog, analista imparcial e Historiador, que nos honra com a sua participação neste espaço. A sua participação divide-se em duas partes e tem por base a análise, à luz da Ciência Histórica, do Período Medieval, essencialmente para iluminar raciocínios. Ao prezado Toninho muito agradeço e sublinho a importância do texto redigido.]

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